quarta-feira, 19 de maio de 2010

A vida - e o amor - como eles são


Eu tinha prometido a mim mesma não postar nenhum texto graande no blog. Não era a linha editorial prevista pra ser seguida aqui. Mas esse ensaio/resenha fala sobre um tema recorrente aqui (cinema) e sobre um filme que é um dos meus preferidos. E é um tipo de texto que eu adoro fazer. Então, se aprovado, pretendo fazer mais do mesmo, sobre outros filmes, livros, tv, etc. Tá? Se você ler, me conta o que achou?:D



"Garoto conhece garota. Ele se apaixona. Ela não." A princípio, 500 dias com ela parece ser mais uma comédia romântica focada na história de um casal que tende a ter problemas durante a trama, como doenças, planos mirabolantes de outros personagens ou questões psicológicas superficiais de um dos envolvidos. Nesse caso, porém, o "problema" que atrapalha a felicidade do casal é, segundo a protagonista, o que sempre acontece: a vida. Os 500 das of Summer (nome original) que podem ser referência ao verão, uma fase feliz do ano, são mais difíceis do que dão a entender.


Ao subverter a fórmula comum das comédias românticas, 500 dias com ela subverte também toda uma idéia de finais felizes, amores à primeira vista e relacionamentos em geral formada ou incutida na sociedade durante anos e anos de romances melosos na literatura, cinema ou televisão. Na história, Tom é um rapaz que sonhava em ser arquiteto, mas trabalha escrevendo cartões, de aniversários à condolências. Summer é a nova secretária do chefe de Tom. É bonita, tem olhos azuis e gosta de The Smiths, banda favorita de Tom. O estrago está feito.




É a partir daí, então, que 500 dias com ela passa a se diferenciar dos outros filmes do gênero. Tom foi uma criança que cresceu acreditando que só seria feliz se encontrasse "a garota". Summer, por outro lado, ainda sofria o trauma da separação dos pais, e era feliz divulgando a filosofia "não acredito no amor". Só por essa inversão de papéis o filme já agrada especialmente o público feminino, acostumado a lidar na vida real com homens alérgicos a compromissos. Entretanto, há mais a se pensar sobre esse conflito de ideais. Há, durante o filme todo, um esforço de Tom na conquista do coração de Summer, que apesar da dedicação dele, parece sempre distante. Eles mantém um relacionamento casual, pois ela não gosta de ser alguma coisa de alguém (como uma namorada, uma esposa). Depois de um tempo "juntos", ela percebe, durante uma sessão de cinema do filme A primeira noite de um homem, que não é a pessoa certa para Tom e resolve dar um tempo. Relacionamento casual e dar um tempo são os novos Bom Dia e Até Logo no campo dos relacionamentos na sociedade atual. É de se imaginar, pois: porque ainda existem tantos Toms se apaixonando por garotas como Summer?


O narrador, ao início do filme, avisa: Isso não é uma história de amor. Com razão, o filme é mais uma história sobre o amor. Tom, ao encontrar Summer pela primeira vez, sente que ela é a garota com quem ele sempre sonhou. Porém, não há uma razão cientifica ou psicológica que explique tal sentimento. Ela não é fisicamente parecida com ele, uma vez que a genética explica que seres humanos tendem a se aproximar de outros seres humanos de aparência semelhante, numa espécie de reconhecimento genético; ou se encaixa num complexo de Édipo de Tom, já que o filme não faz nenhuma referência à mãe dele. Pode-se concluir que Summer poderia ser a garota dos sonhos de qualquer rapaz. E é aí que a natureza, prova algo que todos sabem, mas ninguém consegue provar: ele se apaixona por ela, que não sente o mesmo. É a vida.




A vida, aliás, é retratada com fidelidade no filme. Numa narrativa não linear, pode-se presenciar o 25o dia do casal, feliz, visitando sebos, restaurantes e lojas de móveis. No 391o dia, encontra-se um Tom em crise, pedindo conselhos à irmã mais nova. Em outro momento, Tom narra o que mais gosta na namorada: o sorriso, o cabelo, os joelhos. Dias depois, ele a enxerga diferente: dentes feios, corte de cabelo ultrapassado, joelhos pontudos. Essa ida do céu ao inferno, de altos e baixos é uma desconstrução tão brilhante como verossímil, uma vez que relacionamentos não são feitos apenas de dias felizes ou tristes. Muitas vezes a culpa é da memória de cada pessoa, que sorrateiramente seleciona lembranças a serem guardadas na mente. É muito comum ver casos de amor extremamente conturbados que são irresponsavelmente idealizados como perfeitos por aquele que ama. É de outro filme, Recém casados, uma citação que se encaixa perfeitamente nesse contexto: "Os álbuns de fotografia só mostram os momentos felizes. Mas um relacionamento é formado por esses e por todos os outros em que o marido foi obrigado a dormir no sofá".


A narrativa do filme se mostra incrível em diversos outros momentos, como nas sacadas inteligentes dos personagens e nas referências a outros filmes, como O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, Poderosa Afrodite e Todos Dizem eu te Amo, de Woody Allen, Encantada, numa clara sátira aos musicais da Disney, e ao já citado A primeira noite de um homem, que tem destaque especial. Um dos filmes preferidos do diretor e do protagonista, é possível estabelecer uma relação entre os dois filmes. Tom é claramente identificado com Benjamin Braddock (Dustin Hoffman), um tanto fraco e desorientado. Summer pode ser comparada tanto à Mrs. Robinson, no sentido de seduzir o bobo Tom, quanto à filha dela, Elaine, no sentido de ser conduzida por Tom em um relacionamento que ela não tem ao menos certeza de que também quer manter. Em 500 dias com ela, todavia, os personagens tem um final diferente àquele de Benjamin e Elaine, triste e impulsivo. Com o passar de mais de 40 anos, o cinema parece ter evoluído, e suas personagens femininas, Summer, nesse caso, também.




Cenas de "A primeira noite de um homem"

500 dias com ela é, enfim, um filme que é tão fiel à realidade de tantos Tom's e Summer's por aí, que poderia ser um documentário. A única dificuldade seria encontrar especialistas aptos a explicar um tema tão subjetivo e ao mesmo tempo tão inesgotável: o amor.


E se, ao final do filme, o espectador achar tudo muito semelhante à sua própria realidade, o narrador faz questão de avisar: "Esse filme é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é pura coincidência. Especialmente com você, Jenny Beckman. Vadia.".

Um comentário:

  1. eu olhei esse filme e amei, é realmente lindo :)

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