segunda-feira, 19 de julho de 2010

O cinema, a fantasia e a realidade


444 pessoas na comunidade do Orkut "Eu me apaixono por personagens".

Isso foi uma das primeiras coisas que me vieram à cabeça quando eu terminei de assistir o filme A Rosa Púrpura do Cairo, do mestre Woody Allen. O filme conta a história de Cecilia (Mia Farrow), uma mulher simples, que vive nos Estados Unidos na época da recessão, trabalha de garçonete e tem um marido desempregado e grosseiro. Sua diversão é ir ao cinema, assistir ao filme do título, A Rosa Púrpura do Cairo, que é bem estilo hollywoodiano antigo, um tanto melodramático, bonito de se ver e com final feliz. Daí, quando ela está assistindo o filme pela quinta vez, um dos personagens, que não aguenta mais vê-la no cinema, começa a conversar com ela, e simplesmente sai da telona e passa a viver como uma pessoa real, apaixonando-se perdidamente por Cecilia.

Até aí tudo bem, filme com temática bonitinha, metalinguagem muito bem utilizada. Mas e quando a gente começa a perceber que a história do filme não é só adorável, é também altamente identificável? Atire a primeira câmera quem nunca se imaginou vivendo uma situação de filme ou convivendo com algum personagem. Eu mesma já fiz isso nesse post, sobre namorados legais de filmes e tv (Chuck Bass, vem ni miim!!).

A questão em que eu quero chegar é: onde fica a divisão entre entretenimento e escapismo no cinema? Ou melhor, existe essa divisão?

Sempre tive a noção de que a arte, seja cinema, literatura, música, etc, tem o poder (e talvez a função) de nos dar uma folga da realidade, do stress, do marasmo, da falta que faz ter um filtro de spam na vida real. É clichê, mas eu acho válido. A arte consegue proporcionar diversão, emoção e até reflexões, mudanças de pensamento, de opinião (não tem uma máxima que diz que todo bom livro é um pouco de auto-ajuda? eu super concordo). Tem até uma frase de Nietzsche que diz: "Temos a arte para que a verdade não nos destrua".

Cecilia e sua diversão/fuga no cinema

O problema é quando se passa a pensar que (e lá vem outro clichê) a vida pode imitar a arte. Não digo que é impossível, mas convenhamos, é bem difícil que o cara mais bonito do colégio seja um fofo que se apaixona pela menina nerdona, ou que aquela cena do cara apaixonado se declarando pra amada no aeroporto, depois de ter feito ela perder o avião, aconteça sem complicações no nosso mundo, cheio de burocracias e revistas alfandegárias, né. Sabe quando aquele pessimista fala aquela frase super estraga prazeres, "Não é tão fácil assim"? Pois é, às vezes ele tem razão.

E Woody Allen brinca muito bem com isso em A Rosa Púrpura do Cairo. O personagem do filme até sai das telonas, numa fantasia pra deixar todas as românticas incuráveis suspirando. Mas ao sair da película, é hora de viver de verdade. E agora, José? Pensa que ele e Cecilia, o casal apaixonado, se vira bem? Nem tanto. Ao levar sua amada para jantar num restaurante de luxo, ele tenta pagar a conta com o dinheiro do cinema, que é de mentirinha. Os dois têm que sair do lugar correndo, sem glamour. E ao beijá-la, ele fica esperando que as luzes se apaguem e comecem a subir os créditos, para que eles possam finalmente desfrutar do "Felizes para sempre". Mas né, na vida real não é bem assim. O filme não acaba tão rápido, e Cecilia tem que deixá-lo para voltar para casa, para seu marido ogro. Quem curte?

Não sei dizer se tudo isso tem uma moral ou se deixa uma lição para nós, amantes do cinema e fugitivos da realidade. Não vou ficar dizendo que todos podemos ter um final feliz, que podemos superar todas as adversidades, e outras citações piegas que eu nem acredito muito. Acho que, em suma, não se deve condenar o cinema ou qualquer outra forma de entretenimento por serem apenas formas de escapismo para as pessoas. Mas também acho que, quando o filme acaba, a realidade chama de volta. E seria muito desperdício ignorá-la.

Além do mais, o que eu sei dizer é que o filme A Rosa Púrpura do Cairo é de uma beleza tocante, sensível e sutil. É encantador e triste ao mesmo tempo. E isso você há de concordar que a vida pode ser também, né? Se não é agora, pode ser um dia. Afinal, a gente tem bem mais de 90 minutos pra fazer nossas histórias :)

"I just met a wonderful new man. He's fictional, but you can't have everything"

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