sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sobre as personagens e as personas que nos tornamos



Essa semana, durante a minha aula de comunicação comparada (uma das melhores aulas da faculdade aliás), meu professor estava abordando um assunto interessante. Dizia ele que a maioria das pessoas só tem lembranças de sua infância a partir dos 3 anos, em média. Isso porque, antes dos 3 anos, a gente não tem ao menos noção da nossa própria existência.

Pois bem. O assunto que eu abordo hoje nesse post não tem exatamente a ver com minhas lembranças dos meus 3 anos (apesar de eu me lembrar de coisas absolutamente bizarras e sem nexo; talvez eu fale sobre elas aqui um dia), mas tem a ver com algo que eu me lembro de fazer desde sempre, ou seja, desde que tenho noção da minha própria existência: me identificar com personagens. Como estou fazendo essa série de posts sobre literatura, vou pular a parte analfabeta da minha vida (quando eu me identificava com personagens diversos, tipo Branca de Neve e Pateta - não me perguntem o porquê) e passar logo para a parte escrita.

Não, eu não me lembro do primeiro livro que eu li. Mas lembro que, lá pelos meus 6 anos, eu viciei em gibis. E aí, levando em consideração que, dos 4 aos 11 anos eu fui uma criança gordinha, que até os meus 15 anos os meus dentes eram bem tortinhos e que eu nunca fui uma menina meiga, bonitinha, mamãe-passou-acúcar-em-mim, não é difícil imaginar com quem eu me identificaria, né. Mônica, é claro. E eu bem que gostava. Porque, sem querer entrar em questões psicológicas nem nada; a Mônica é meio que a heroína dessas crianças imperfeitinhas e geniosas. Afinal, ela é a protagonista de todo o negócio, dá uma certa esperança às meninas como ela que, na vida fora das páginas dos gibis, eram destinadas a nunca ter o papel da princesa nas peças da escola e sempre ficar na última fileira das apresentações do dia das mães porque a menina bonita e de cabelos lisos causava uma melhor impressão. Ah, e eu também tinha um Sansão, igual ao dela :).


Bom, mas apesar da Mônica ser minha primeira heroína me dar um certo orgulhinho de ser como ela, devo dizer que, alguns anos depois, minha vida não tinha melhorado muito não. Foi aí que, em meio aos livros de português, da terceira ou quarta série, eu conheci a Mafalda. E aí a identificação foi inevitável. Porque eu era a Mafalda. Meus melhores amigos eram meninos, eu me interessava por questões mundiais e meu cabelo era praticamente igual ao dela (eu aviseei que a vida não tinha melhorado!). E foi nessa época que eu comecei a fazer coleção dos livrinhos de tirinhas. Coleção que devo completar esse ano, comprando os dois ou três livros que faltam nessa Bienal (mas se alguém quiser me dar aquelas edições especiais, grandes e coloridas, eu super aceito, hahah).

Eu, aos 6, 7 anos, de Mafalda - ou seja, ao natural
Na mesma época, outras personagem incrível surgiu pra mostrar que eu não tava sozinha no mundo. E mais, pra mostrar que existia, nem que fosse nos livros, mais gente nerd e de cabelo armado. Eu tô falando de Hermione Granger, de um dos melhores e mais queridos livros de todos os tempos pra mim. E eu acho que, pela primeira vez, uma personagem não trouxe conforto pra minha vida, mas sim um leve desconforto, um incômodo. Sabe aquela famosa cena do "Vingardium Leviosa", em que a Hermione humilha na aula e todo mundo tira sarro dela por ela se sentir superior e mais inteligente que os outros? Então. Situações como essa não são tão legais quando você se identifica. Na minha opinião, essas atitudes, tanto as da Hermione quanto as minhas, eram de certa forma um mecanismo de defesa. Mas é claro que crianças de 10 anos não entendem isso. Aliás, crianças de 20 anos também não entendem.


Mas aí, eis que chega a adolescência. O volume do meu cabelo já tinha sido consideravelmente controlado, mas meus dilemas, inseguranças e crises existenciais, nem tanto. E, nessa fase, eu ainda cometi a praticamente heresia de não ler a série "O Diário da Princesa" (apesar de adorar os filmes), nem nenhum livro da Meg Cabot. Li, porém, outra série: Quatro Amigas e Um Jeans Viajante. E a personagem com que eu me identifiquei dessa vez foi Lena, tímida, retraída e meio encalhada. Pois é. Mas o legal é que, assim como a Lena, eu fui aprendendo a me soltar mais, amadureci e aprendi a aceitar um pouco mais meu jeito tímido, e entendi que com as pessoas certas, eu também sei ser legal. Só me falta agora viajar pra Grécia e pegar um grego gatíssimo, como a Lena fez, né.


E aí hoje eu sou uma recém saída da adolescência, órfã de personagens de livros para me identificar. Talvez porque hoje eu veja mais filmes e séries do que leia livros (hoje a Monica com que eu me identifico mais é aquela de Friends, controladora, organizada e que sonha em constituir família, haha, ou a Blair de GG, também com espírito de chefe e com figurinos maravilhosos). Ou talvez porque minha leitura atual não favorece muito (tenho lido muito Agatha Christie e coisas pra faculdade, tipo "A Construção Social da Realidade". Não dá, né). Ou porque hoje eu diversifiquei minhas formas de leitura também. Me identifico e gosto muito dos textos e tweets da Tati Bernardi, por exemplo.

O fato é que eu tenho absoluta certeza que essas meninas, ainda que irreais, ainda que mega distantes da realidade, ainda que eu só tenha visto suas representações em filmes, estátuas ou teatrinhos do parque da Mônica, tiveram muita importância na minha vida. E, consequentemente, na formação da pessoa que eu sou hoje. E eu acho que não importa se eu tenho 10, 20, 30, 40, 50 anos, vai sempre existir uma Lena, uma Hermione, uma Mônica e uma Mafalda dentro de mim. Mais especificamente, na minha cabeça. Porque, afinal, eu nunca deixei de ter cabelo armado, né? :)

3 comentários:

  1. Têm duas personagens que eu tenho certeza que foram baseadas em mim (hahah): A Ângela, do seriado My So Called Life, e a Peyton, de One Tree Hill.

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  2. Ahhh, que post delícia! Eu tbm adorava a Mônica quando era criança, achava ela sensacional. Eu tinha uma ideia do tipo: sei que a mônica vai ser provocada pelo cebolinha ou pelo cascão, mas no final ela vai sair por cima. Tipo, uma heroína mesmo...haha. E Mafalda...bom, Mafalda é Mafalda, né! ADORO! Fui há pouco tempo pra Buenos Aires e foi como ir pra Disney quando encontrei um banco que tem lá no qual a personagem tá sentada. Tirei mil fotos! haha :B

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  3. Fe, ameeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei o post. Muito bom. Sabe aquele light e deep? haha! Sempre me identifico com algum personagem num livro, mesmo que não seja algo pra toda a vida, tipo ''eu sou ela!''. Acho que, se não rolar um mínimo de identificação, mesmo que seja de alguma pessoa que você conhece, o livro perde um pouquinho do encanto. Como eu gosto de muitos livros, chego à conclusão de que temos muitos pedacinhos de nós soltos em muitos personagens.

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