sexta-feira, 18 de março de 2011

Mulherzinhas

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Quando eu estava no colegial, tinha um grupo de meninas lindas na minha sala. Tá, só duas eram gatenhas, mas as outras, só de andar com elas, já estavam automaticamente no mesmo patamar, né. Enfim, lindas. Eram super magras mas tinham peito pra encher decote, tinham cabelos lisíssimos e com luzes perfeitas, sabiam passar delineador como ninguém, tinham os pulsos cheios de pulseiras swarovski, não tinham uma espinha na cara e estavam sempre nas capas das comunidades "Mais Gatas do Orkut" e afins.

Não é difícil imaginar que ser amiga delas era uma humilhação pela qual todas as meninas fisicamente menos privilegiadas das escola queriam passar. Inclusive eu, lóogico. Um dia, estava eu matando aula de educação física (eu sempre, sempre matava as aulas de educação física) quando uma dessas meninas teve crise de asma, saiu da aula e sentou perto de mim com a amiga. Eu fiquei ali, ouvindo o papo delas e esperando qualquer brecha pra soltar um comentário simpatiquinho e daí começar a vida como BFF das limdas. Mas não deu. Não porque elas eram do mal e ignoravam a garota dos dentes tortos aqui. Não, elas eram até legaizinhas, boas pessoas. Não deu porque eu não consegui achar nenhum comentário útil pra fazer no único assunto delas: homens.

E não foi só dessa vez. Tive várias outras super-oportunidades de contato com elas, e era sempre o mesmo tema. No restaurante: será que ele volta pra mim? No intervalo: será que eu volto pra ele? No shopping: você acha que ele fica comigo? Durante a aula: na minha festa de 15 anos (olha mudou!), você acha que eu fico com ele (é, não mudou)? E sempre num tom de melancolia, coisa de sair correndo pra chorar no banheiro durante o recreio porque tocou a música "deles" na rádio da escola, sabe (Big Girls Don't Cry, lembro até hoje). Ok, entendo que adolescentes tendem a exagerar na tosquice e fazer de coisas pequenas a pior tragédia do mundo. O que eu não entendia era como meninas perfeitas, que teoricamente já têm a vida mais feliz só por não precisar se preocupar com o frizz do cabelo, por exemplo, conseguiam ser tão infelizes e sofrer tanto por causa de…homem (coisa que devia ser muito mais fácil pra elas arranjarem também, né)!

Mas olha, acho que não é só coisa de adolescente. Faça o exercício de pegar uma revista Nova pra ler. Já te adianto de antemão os assuntos que você vai encontrar lá: homem, homem, homem, plástica, homem, homem, posições sexuais, homem, dieta, atriz linda humilhando na capa com corpo perfeito para satisfazer o…? Ganha um chocolate quem adivinhar (porque só chocolate cura falta dele, né!). Tem até uma seção na revista Alfa em que a brilhante, gênia, ídola, escritora Tati Bernardi comenta as matérias dessas revistas sobre o sexo masculino. Veja por exemplo essa reportagem que ensina a conquistar um marido em poucos meses.

Já dizia a mesma Tati Bernardi que:

"Queimamos sutiãs, a Madonna desceu na boquinha da garrafa dentro da igreja, minha mãe me criou repetindo diariamente que nenhum homem presta, Simone de Beauvoir estava linda na foto da bunda com celulite, Carrie Bradshaw deu para Nova York inteira e Lilly Allen canta com fofura e maldade sobre o loser que não nos faz gozar. Apesar de tudo isso, (…) eu ainda fico mal pra cacete quando estou sem um namorado. Ou melhor: fico mal sem cacete." (link para o texto na íntegra)

E é verdade. Até agora eu só critiquei, mas não me excluo das agruras femininas. Porque né, eu também gosto da fruta, fico endeusando o James Franco no twitter, choro em todo casamento que vou, sou a pessoa mais romântica que eu conheço, leio reportagens do tipo "pesquisas mostram que mulheres estariam dispostas a sacrificar a vida profissional pela família" e acho que, mesmo sofrendo muito, eu faria o mesmo. Não julgo quem gosta da Nova nem quem tem como bíblia livros do tipo Por Que os Homens Amam as Mulheres Poderosas?, tenho até curiosidade de ler um dia. Mas a questão é: será que quando a mulher muda o foco da sua vida pra vida dele, só fala nele, pensa nele, chora por ele, não, não liga pra ele; ela deixa de ser mulher pra ser só machista? Ou melhor, será que ela deixa de ser mulher pra ser só uma coisa pequena, limitada, uma mulherzinha?

Também não sei se é só um incômodo meu. Sou dessas que não votou na Dilma, mas fica feliz de vê-la ali na presidência e ali no programa da Ana Maria Braga, falando de inflação e fazendo omelete ao mesmo tempo. Sou dessas que era muito mais fã das Spice Girls do que dos Backstreet Boys. Sou dessas que faz uma semana inteira de posts dedicados a nós, mulheres. Enfim, tenho um quê de feminismo dentro de mim. Mas acho que, sinceramente, eu não me satisfaria só pelo fato de ter um homem perfeito comigo. E sei lá, realmente não tenho muita experiência no assunto, posso super estar errada, mas acho que um homem não ia querer ficar comigo pra sempre ou voltar pra mim, como diziam as meninas da minha sala, só pelo fato de eu ter um par de peitos ou saber algumas "posições para deixá-lo louco na cama".

Não vim aqui falar que a mulher precisa se dar valor, porque isso até o Diogro do BBB já disse. Também não vim falar que nós, mulheres, precisamos nos unir pra conquistar o mundo, porque isso alguém lá nos anos 60, ou antes, já disse também. Mas sabe o que eu queria dizer, de verdade? Queria dizer que, se um homem eu fosse, acharia chato demaaaaais ficar com uma mulher monotemática, que só vive pra agradá-lo, que vive em função dele. Porque, quando isso acabar, quando a bunda dela já for filme repetido, o que vai sobrar pra quando o cara quiser uma companhia legal pra ver tv num dia chuvoso? E muito pior, se a relação acabar, o que vai sobrar pra ela (além do chocolate, claro)?

No fim, a mesma Madonna que "dançou na boquinha da garrafa na igreja" é a Madonna cinquentona que pegou (e já largou) o Jesus; e ela vai muito, muito além dele. A mesma Carrie que "deu pra Nova York inteira" é a Carrie que pastou, mas casou com Mr. Big; e ela é muito, muito maior que ele (com trocadilho, por favor). No fim, são essas mulheres legais, incríveis, com imagens fortes, bem sucedidas, que ficam pra história, e é nelas que as garotas lindas da minha classe e as pessoas que compram Nova deviam se inspirar.

Tem uma cena no filme Digam O Que Quiserem em que a amiga do protagonista fala assim pra ele: "Don't be a guy. The world is filled with guys. Be a man". Termino esse post dedicando a mesma frase, devidamente adaptada, a todos os seres do sexo feminino que me leem neste momento: Não seja uma mulherzinha. O mundo tá cheio delas. Seja uma mulher.


4 comentários:

  1. Nossa, Fer, amei o texto! Condordo plenamente. Parabéns =D

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  2. Adorei o tema dos posts dessa semana e esse veio pra fechar com chave de ouro!
    Quando eu crescer quero escrever bem que nem vc :)

    Bjs

    P.S.:Adoro Batutinhas,foi um dos filmes da minha infancia!

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  3. Fêee!

    Amei o post, de verdade! Acho que somos mais parecidas do que imaginamos!hahaha
    Concordo totalmente :)

    E tenta ñ largar sua profissão não, vc executa ela muuuito bem para deixar para trás... :)

    Beijooos
    Nathália Duarte, vulgo nathiil
    (Não sei comentar nisso aqui usando meu nome mesmo!hahhaa)

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  4. cheguei nesse blog por indicação de uma amiga minha, e amei!

    adorei o post, concordo com o seu ponto de vista, embora às vezes eu dê uma escorregadinha nesses assuntos, mas são surtos de gente impulsiva... =p

    continue sempre escrevendo, quero ler mais textos legais como esse =)

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