sexta-feira, 3 de junho de 2011

O terceiro da lista

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No post que fiz sobre Confessional Culture, eu disse que tinha um texto no estilo dos relatos do livro Cassette From My Ex encaminhado. Bom, o texto é esse. A ideia era falar sobre amor e música, mas tenho certeza que não atingi esse objetivo com muito êxito. Enfim, uma vez ouvi de um cara fodão da internet que blogueiro também tem que saber contar história. Então, essa sou eu tentando contar uma.

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É engraçado ver que, conforme o tempo passa, a gente muitas vezes não se lembra das situações exatamente como elas aconteceram, mas lembra de relances delas. Quando eu terminei o ensino fundamental, tive que mudar de escola, porque na minha então escola não tinha ensino médio. Apesar disso, a minha maturidade para encarar uma escola 10 vezes maior era bem média, e a minha experiência com assuntos do coração, então, era tipo "valor não considerado". Essas duas características meio que justificam coisas que eu vim a fazer durante esse primeiro ano do colegial. Logo no primeiro dia de aula, antes de ir embora, dei uma olhada para o fundo da sala (eu ainda era dessas que sentava nas primeiras cadeiras) para listar quais e quantos eram os meninos bonitos da minha turma, porque eu sabia que as minhas amigas iriam perguntar sobre isso (e elas de fato perguntaram). Contei dois, um loiro de olhos azuis e um alto, moreno, cheio de espinhas na cara, mas isso eu não precisava contar. Tinha também um terceiro, lá na última cadeira, com uma carinha simpática. Ele não era muito bonito. Tá, ele não era bonito mesmo. Não o inclui no relato que passei pras amigas. Mas algo dizia que eu não devia tirá-lo da minha listinha pessoal.

Os dois primeiros, obviamente, nunca deram uma mísera olhada pra mim durante o colegial inteiro. Mas devo confessar que minhas amigas ouviram falar muito sobre o terceiro durante os próximos meses.

A gente vivia em uma época em que o dia útil acabava ao 12:30, e o resto da tarde servia basicamente pra dormir, ir no cursinho de inglês e ficar mofando na internet, de preferência no Orkut e Msn. Naqueles primeiros contatos, Orkut era pra ver as comunidades e ter assunto, Msn pra comentar sobre elas, Orkut mais uma vez pra entrar nas comunidades que pegassem bem pro meu lado, Msn de novo pra ler os comentários, esperando do fundo do coração que aquela "Sou menina de família" tivesse causado uma boa impressão, ou que a "Quero me apaixonar pra sempre" gerasse um xaveco. Incrível como a gente consegue ter tempo livre e ânimo pra se dedicar a esforços tão específicos na adolescência.

Daí o msn começou a ter uma função um pouco menos boba: troca de interesses musicais. Mais tarde, 500 Dias com Ela me ensinaria que só porque o cara/a garota gosta das mesmas coisas bizarras que você, não quer dizer que ele/ela é sua alma gêmea. Mas lógico que nessa período da minha existência, o fato de um garoto me apresentar uma banda chamada Save Ferris, referência a um dos meus filmes preferidos (Curtindo a Vida Adoidado), não só indicava como berrava, gritava, anunciava em neon: alma gêmea, par perfeito, romance digno de livro de Nicholas Sparks.

E não importa o que se diga, a grande verdade é que uma pessoa aumenta absurdamente seu poder de irresistibilidade quando tem um gosto musical bom. Ele gostava de Foo Fighters, de Pearl Jam, de K.T. Tunstall. Tardes inteiras analisando as últimas músicas que tínhamos baixado. Claro que nem tudo batia. Eu sofria mini bullying por ser fã Destiny's Child, minha então música preferida, Breakaway da Kelly Clarkson, era "muito menininha", e meu querido Aerosmith era apenas "audível". E ele gostava de uma coisa chamada "ska", que eu não conhecia e também não fiz muita questão de conhecer até hoje. Mas, numa irracionalidade clássica dos apaixonados, fingia que tinha adorado.

Meses se passaram só nesse vai-não-vai virtual. Ele não tomava nenhuma atitude, e eu era muito criança e tímida pra fazer aloka e mandar um Do You Wanna Touch pra ver se ele se tocava. A gente não ficava, mas ficava nisso de subnick do msn com frase de música do Franz Ferdinand, festas de 15 anos cheias de expectativas e nada de realizações - o que, pensando bem, nem foi tão ruim, porque não deve ser muito romântico ficar com alguém que você gosta ao som de Tô Ficando Atoladinha.Mas enfim, eu tinha esperança que um dia ia acontecer, e aconteceu. Nosso primeiro beijo foi meu primeiro beijo. Não, não foi digno de Nicholas Sparks. Não, não ouvi sininhos. Na verdade, não ouvi nada além do som ambiente do shopping do bairro. Mas, mesmo assim, achei que soou bem.

Então, a vida continuou a mesma, mas um pouco diferente. Vi quão divertido era andar de mãos dadas pelo pátio do colégio, que bom que era ver seus amigos dizendo que vocês faziam um casal bonito, ouvi um inédito eu te amo, e pouco me importava se era amor de verdade ou se era só coisa de adolescente, que nem significava nada. Pouco me importa agora, também. Era simplesmente muito legal.

E lógico, como tudo que é muito legal, isso também durou pouco. Como a gente tinha praticamente se conhecido e engatado toda a "relação" por Msn, acredito que ele achou que seria ok terminar por msn também. Daí ele me contou que meio que eu não era the only girl in the world, que tinha uma ex recém chegada de um intercâmbio, sei lá. Eu e meu passado amoroso inexistente não tínhamos previsto um imprevisto desses. E foi aí que eu esqueci o Nicholas Sparks e foquei em dar uma de Maria do Bairro mesmo, com todo o drama que o messenger me dava coragem pra fazer. Só sei que terminei deixando o Forfun responder por mim com sua História de Verão.

Daí pra frente, a trilha sonora deu uma decaída. Resolvi curtir uma fossa com Silverchair e seu Miss You Love, Simple Plan com Addicted e Hateen, muito Hateen. Veja, eu não era emo, mas certamente tinha muita vocação pra coisa. E ouvi aquela banda, a Save Ferris, de novo, e percebi que a minha música preferida deles, Mistaken, era a história da minha vida naquele momento. E ficou no repeat até que eu entendesse que já era hora de baixar novas músicas.

Há muito tempo eu não ouvia Mistaken. Ela saiu do meu Ipod como ele saiu da minha vida. Ouvindo-a de novo agora, eu ainda gosto, ainda sei cantar inteira, mas não pretendo colocá-la de volta na minha playlist. Porque pra mim ela é como um desses atores que faz um personagem muito marcante e depois não consegue fazer sucesso em nenhum outro papel. Eu gosto do fato de ela me lembrar dessa minha historinha, mas não quero que ela ocasionalmente sirva de plano de fundo pra qualquer outra historinha que eu venha a ter.

E eu tenho certeza que ele não se lembra disso tudo do jeito que eu me lembro. Tenho certeza que ele não pensou na minha decepção quando começou a gostar de Natiruts enquanto eu continuava e continuo amando Foo Fighters. Mas eu não ligo. Não sei quem ele é hoje, mas o que importa é o que a gente era naqueles dias. Pensei muito se não devia apagar todo esse texto em vez de postá-lo aqui. Um pouco porque sou meio muito envergonhada, fechada e receosa pra expor e falar sobre minha vida pessoal, outro pouco porque isso já faz alguns anos e não sei se fui fiel aos fatos ou se dei uma idealizada básica neles. Mas enfim, acho que as coisas que foram importantes pra nós sempre merecem algum tipo de registro. E né, se eu não apaguei ele daquela listinha que fiz lá no primeiro dia de aula, por que iria querer apagá-lo da minha memória? ;]

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