segunda-feira, 11 de julho de 2011

Thank You, Harry!

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Capa sensacional e histórica da Entertainment Weekly


Tem uma tradição da mitologia grega que consistia em enterrar os mortos com moedas nas mãos. Reza a lenda que a pessoa, quando deixa este mundo, pega um barco para seu próximo destino, e precisa entregar para o barqueiro essas moedas para que ele a leve ao paraíso.

Esse não é exatamente um texto mórbido, mas de certa forma fala sobre algo que foi e não volta mais. Algo que muita gente não sabe como, mas vai ter que começar a viver sem. Ou melhor, não só "algo", eu tô falando de "alguéns": Harry, Rony, Hermione e mais um bando de gente.

Nos últimos dez anos, eu acompanhei bem de perto todos os lançamentos e acontecimentos envolvendo o universo da história de J. K. Rowling, e acompanhei as reações e declarações dos fãs também. Nesse momento, observando tudo o que está acontecendo nesses últimos dias antes da despedida final, pude concluir uma coisa: socorro, minha geração está em crise.

Sério, tá complicado, a coisa tá feia mesmo. Eu sei que "não tá fácil pra ninguém", mas acredite, pra nós tá um pouquinho pior. Nunca antes na história desse país (quiçá deste mundo) tantos jovens pronunciaram a expressão "na minha época". Nunca antes tanta gente chorou ao ver fotografias antigas, dos tempos da escola - não dos nossos, mas aqueles tempos de Hogwarts no 1º filme, das montagens com o antes e depois dos atores, por aí vai. Nunca antes uma geração de gente de quase 20, 20 e poucos anos, se sentiu tão desamparada, tão sem razão pra continuar a viver (ok, agora peguei pesado. Mas, para muitos, não deixa de ser verdade).

Falo isso por muita gente que conheço e que vi choramingando pelos twitters e facebooks da vida, e, principalmente, falo por mim. Tenho o hábito de, sempre quando termino de ver um filme da série, voltar pra casa e pegar o livro do filme que acabei de ver e reler, nem que seja só alguns pedaços, e depois pegar o livro seguinte pra relembrar o que vai acontecer no próximo filme. E agora, qual vai ser o meu refúgio após esse filme (ler os livrinhos derivados, tipo o do Quadribol, o dos Animais Fantásticos e "O Mundo Mágico de Harry Potter" não vale, já li todos também)? Como é que a gente vai viver sem a tradição de, praticamente em julho de todo ano, saber que vai rever a galere bruxa no cinema?

Tradição, aliás, é uma coisa que remete ao passado, à velhice. Mas eu acho que, nesse caso, a frase proferida no filme "Educação", pela então adolescente de 17 anos, Jenny, faz todo o sentido: "I feel old, but not very wise". Porque a gente tá mesmo se sentido velho, muito velho. A gente está tendo que encarar de uma vez por todas que o tempo passou, que a gente não é mais criança, de uma forma bem dura, sabe. De repente, a gente se desespera porque não tem mais ingresso pra ver o filme na pré-estreia, e os horários do dia da estreia não servem, uma vez que você trabalha das 14h às 20h e não pode simplesmente sair do colégio e ir pro cinema. Ao mesmo tempo, eu me lembro de ter assistido a estreia do primeiro filme numa sessão tranquila, num shopping perto de casa, junto com meu pai. Hoje, meu pai foi comigo até o cinema também, mas me acompanhou só até a porta. Eu entrei sozinha, numa sessão reservada para jornalistas, para assistir ao filme para o trabalho, e não só por amor.

Aliás, se eu for entrar de verdade na parte do "eu me lembro", não termino esse texto nunca mais. Porque pra quem não é fã pode parecer bobagem, mas Harry Potter teve, de fato, grande influência na minha infância. Eu me lembro de ter comprado o livro pela mesma razão que quase todo mundo; porque era estava fazendo sucesso, e era sobre um garoto de 11 anos (na época eu tinha 9), devia ser legal. Aparentemente era mesmo, porque do nada minha escola foi invadida por Harry Potter. Livros circulando no recreio, cadernos com estampa do bruxinho e todos os produtos licenciados que você possa imaginar. O Halloween da 4ª série foi inovador: todo mundo fantasiado de algum personagem do livro. Na verdade, a fantasia de todo mundo era igual, aquele traje preto, variando só em alguém que tinha uma vassoura ou um cachecol da Grifinória. Mas teve briga e sorteio pra definir quem seria oficialmente Harry, Rony, Hermione e Gina. Claro que eu não fui sorteada pra ser nenhuma das duas, e acabei indo de Angelina Johnson (que era do time de quadribol, uma personagem mais X que figurante de Malhação, mas que ainda era melhor que ir de Tia Petúnia).

Fora da escola, o vício continuava. Eu me lembro de que a minha loja preferida era a Side Play, que vendia tudo com a marca Harry Potter. Eu tinha camiseta, agasalho, almofada e objetos de decoração variados que se perderam quando eu cresci, mudei de casa, sei lá. Infelizmente, dessa parte em que tive a ousadia de me desfazer dessas "relíquias", eu não me lembro.

Mas voltando ao "old but not very wise", ha-ha, definitivamente não ficamos muito sábios com o passar do tempo. Quer dizer, claro que aprendemos muitas coisas com o livro. Aprendi o valor da amizade, aprendi que chocolate é um dos melhores remédios que existe. Aprendi muito sobre valores como coragem, honra, amor, e aprendi que Hogwarts estará sempre lá para nos acolher. E, não menos importante, aprendi que livros enormes não são assustadores, que eles podem ser incríveis, e tomei ainda mais gosto pela leitura. Mas posso dizer que apesar de ter aprendido tudo isso, não sei como lidar com o fato de que, a partir de agora, vamos ter que viver sem esses personagens, sem a continuação dessa história, sem a expectativa de um novo livro ou um novo filme. Nesse último, uma angústia, algumas lágrimas e mil borboletas no estômago me acompanharam durante o filme inteiro, mesmo sabendo qual seria o final - e justamente por saber que aquilo era o final, mesmo. E como eu provavelmente já estou sendo absurdamente piegas e brega esse texto inteiro, não vejo problemas em continuar sendo e citar um verso de uma música romântica cujo nome não me ocorre no momento: "E agora, que faço eu da vida sem você? Você não me ensinou a te esquecer".

E o pior é que a música continua com essa melancolia ladeira abaixo, e o prognóstico não é bom. "Vou me perdendo, buscando em outros braços seus abraços". Daí eu me pergunto, e que outros braços seriam estes, hein? "Crepúsculo"? Desculpa, mas não, obrigada. Minha amiga Isa escreveu no blog dela, há um tempinho, um texto sobre HP e a historinha de Stephenie Meyer, e eu concordo com cada palavra. Acho que curto uma monogamia, sabe, prefiro manter meu amor incondicional e até minhas paixões platônicas direcionadas para um livro e um personagem só (Daniel Radcliffe, se um dia vier ao Brasil, beijomeliga).

Inclusive, em se tratando de Harry Potter, nunca consegui manter um equilíbrio entre razão e emoção. Sempre que terminava um livro, ficava obcecada com a história, pensando nela sem parar, tipo paixão mesmo. Até tenho amigos que não leram e nem gostam muito, mas não consigo ter muita simpatia por gente que fala mal de HP. E olha que eu nunca fui desses fãs malucos, que vão fantasiados ao cinema. (Na sessão reservada em que assisti o último filme, tinha muita gente dos fãs clubes chorando desesperadamente, de soluçar. Olha, tô rezando pela alma desse povo. Se eu tô sofrendo, imagina eles.) Mas, fazendo um esforcinho e deixando a razão aflorar, acho que eu posso dizer com propriedade que faço parte de uma geração muito, muito privilegiada, que teve a sorte e a honra de crescer com uma história tão sensacional como essa.

Sessões reservadas para jornalistas são muito legais, porque além de você ver o filme antes, de vez em quando rolam uns brindes. Nada demais, mas pobre que se preze adora ganhar coisa de graça. Os brindes que a Warner deu pra quem foi assistir "Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2" foram: uma pasta com um cd dentro, que contém as imagens promocionais do filme; óculos 3D personalizados (foto aqui) e um Galeão, a moeda do mundo bruxo. Na hora em que abri o saquinho e vi essa moeda, não acreditei. Tive meio que uma epifania, não sei ao certo. É que eu tenho um Galeão exatamente iguaaaal a esse, com a única diferença de estar com uma cor diferente devido ao envelhecimento do tempo. Ganhei o primeiro Galeão quando comprei o VHS do primeiro filme, "Harry Potter e a Pedra Filosofal", no dia do lançamento (quem comprasse nesse dia, nas Lojas Americanas, ganhava esse brinde).

Meus dois Galeões (ou uma tentativa #fail de tirar foto deles)

A história lá do primeiro parágrafo, da tradição grega das moedas, começa a fazer sentido agora. O primeiro Galeão marcou minha entrada ao mundo mágico de Harry Potter. O segundo Galeão marca minha saída; saída da infância, da adolescência, mas não da história.  Os dois galeões juntos pagam a minha viagem ao barqueiro, que vai me levar a um novo caminho. Sem novos filmes, sem novos livros. Mas sempre com os antigos ali na prateleira, ao alcance das mãos e do coração, pra toda vez que eu sentir saudade de "casa" e dos "amigos".


5 comentários:

  1. É muita nostalgia pra uma geração só hahaha

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  2. Oi! Faz um tempo que venho visitando seu blog, mas nunca tinha comentado. Depois de ler esse lindo post sobre Harry Potter, senti que pelo menos um comentariozinho era minha obrigação. Falam muito mal, geralmente, da nossa geração (também tenho 19 anos), mas eu acho que nós teremos mais "história pra contar" que essa 'nova' geração que curte Crepúsculo, como você citou. Tenho a leve impressão de que algumas pessoas, quando forem mais velhas, vão pensar na sua adolescência e rir do fato de terem tido o Edward e a Bella como ídolos, o que é bastante diferente dos fãs de Harry Potter, cuja maioria lê as histórias desde a pré-adolescência e até hoje tem orgulho de ser fã. Meu sentimento em relação ao fim de HP é o mesmo que o seu: e agora? O jeito com que você 'fechou' o post e contou a sua história foi legal demais. Parabéns pelo blog!

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  3. Fê, me sinto exatamente como você. No meio da angústia de ficar "órfã", percebi que tenho muita sorte de crescer com uma família dessa. Porque não importa se os nossos filhos lerem, assistirem, whatever, eles não vão sentir o friozinho de esperar cada livro, de ficar futucando o site de JK Rowling vendo se conseguia alguma pista do que estava por vim, ou até mesmo de ler o livro vazado na internet em frente ao computador, devorando enquanto os olhos queimam.
    Somos sortudos.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. tenho 20 anos agora quando vi o primeiro filme fiquei louco, apaixonado pela saga conprei de tudo sobre harry potter livros camisas canetas em fim,mais quando acabou foi uma dor, na epoca tinha 9 anos quando entrei nessa bela historia agora e so tristeza e recordação mas a vida e a sim mesmo tudo começa e acaba mas queria que esse não acabasse harry potter estara comigo para sempre

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