quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Como uma coisa se torna coxinha?

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Eu vou começar esse post contando uma historinha meio desinteressante e até um pouco vergonhosa, mas eu prometo que tenho um ponto. Dia desses, estava eu preenchendo uma ficha quando me deparo com a seguinte pergunta: qual foi o último filme que você viu no cinema? Eu me senti meio mal porque percebi que faz MUITO tempo que não vou ao cinema, tanto que nem lembrava qual tinha sido o último filme que tinha visto e nem sabia o que estava em cartaz agora. Chegando em casa, fui fuçar no filmow pra me atualizar sobre o que estava sendo exibido nas telonas atualmente.

No filmow, eu descobri um filme que estreou agora, na verdade um documentário, chamado Rock Brasília - A Era de Ouro. Fiquei super com vontade de assistir, pensei em chamar amigos pra a gente combinar, mas então me lembrei que, entre os meus amigos, muitos não gostariam do tema por não gostar das bandas e outros tantos simplesmente as consideram uma coisa coxinha.


Ok. Respeito o gosto das pessoas, juro, mas eu queria só saber como foi que isso aconteceu, tipo, eu acordei um dia e o mundo tinha passado a considerar Legião Urbana coxinha, é isso? Daí foi que eu parei pra pensar sobre como e porquê uma coisa, uma música, um artista, se torna, aos olhos de um público mais crítico, um negócio coxinha.

Sempre vale lembrar que a popularização da expressão coxinha é um fenômeno recente (frase de trabalho acadêmico feelings), e eu não sei explicar da onde surgiu. Só sei que não tem uma definição certa da palavra, podendo ser aplicada a vários estereótipos (o @tiposdecoxinha dá um ótimo, ÓTIMO panorama disso). Nesse caso, eu estou usando coxinha no sentido mais disseminado, ou seja, para caracterizar algo/alguém sem noção, brega, babaca, de mau gosto. Quer dizer, nas próximas linhas, estarei sendo politicamente incorreta. Nem vou falar "não me julguem", porque já que eu tô falando o que quero, tenho que aceitar ouvir o que não quero se for o caso. Mas juro, de verdade, que escrevo sem a menooor maldade do coração, só com respeito mesmo - e uma dose de ironia e brincadeira porque né, a vida é muito curta pra ser levada tão a sério #frasesdeorkut.

Mas enfim, voltando ao Legião Urbana e o coxinismo. Eu cresci com a ideia de que Legião era a nata da música brasileira dos anos 80 e meio que de todos os tempos. Aos 11 anos, eu tinha fitas gravadas de discos da banda e as ouvia, repetidamente, no walkman. Eu usava camiseta do Legião Urbana. Quando saiu Mais Uma Vez, música até então inédita, em 2003, eu coloquei como toque de celular. Depois, o encantamento foi passando, e hoje eu acho que só tenho 2 músicas deles no Ipod. Mas, de qualquer jeito, continuo achando Legião top demais, com letras top demais e músicas top demais pra achar ok ver gente xingando no twitter e chamando de coxinha.

A banda já não está mais em atividade há muitos anos, logo não dá pra dizer que foi ela que criou essa reputação pra si mesma. Então, o que fez o Legião passar, pelo menos pra mim, de um exemplo de boa música no Brasil para uma banda querida, mas com uma imagem coxinha para os outros?

Foi o fato de as músícas terem sido banalizadas ao longo do tempo - tipo a orkutização de Por Enquanto ("o pra sempre sempre acaba" em depoimentos de amigos, quem nunca?)? Foi o fato de muitas bandas nada a ver resolverem fazer covers toscos - (tipo Gabriel Pensador no Criança Esperança com Pais e Filhos e todo o sentimentalismo do mundo)? Foi o fato de pessoas usarem as citações das letras de forma que a gente pegue uma lembrança ruim delas - tipo toda a vez que você ouve Geração Coca-Cola você lembra daquele seu amigo que nunca deve ter lido uma linha de uma reportagem de política na vida, mas achou ok citar a música pra comentar a morte do Kaddafi no Facebook? Sério gente, foi um desses motivos ou Renato Russo fez alguma coisa muito cagada antes de morrer que fez todo mundo torcer o nariz pra ele e eu não tô sabendo?

Ainda no assunto Rock Brasília, e o Dinho Ouro Preto? Eu tenho que fazer um parágrafo só sobre o Dinho Ouro Preto. Quando foi que ele se tornou esse babaca que todo mundo assume que ele é hoje? Foi quando o Adnet comecou a imitá-lo? Foi depois que ele usou uma camisa brilhante e terrível na gravação do acústico do Capital Inicial? Porque eu fui num show da banda em 2004 e de verdade, foi um dos shows que eu mais me diverti na minha vida. E me lembro de ele ter uma coluna sobre cultura na Capricho nessa mesma época que era muito legal. E nunca ouvi minha mãe comentando sobre como era irritante ele falar "e aí, moçadan" nos anos 80. Eu sei que o rock nacional tá em baixa (bem em baixa) no momento, mas a minha impressão é que o Dinho tá ainda mais em baixa. Ele virou tipo piada pronta.

Dinho: de fofinho a coxinha

Vai ver tudo isso é porque, a princípio, as produções culturais, sejam elas músicas, filmes, bandas, sei lá, não são coxinhas. É o modo como elas são apreciadas (ou não) e as reações que a gente observa em relação a elas que fazem com que criemos uma imagem mais ou menos coxinha.

Vou dar um exemplo fictício, mas que poderia acontecer: eu não acho Glee coxinha (isso não é fictício, haha). Eu assisto a série desde o começo, conheço a maioria das músicas coverizadas antes de irem ao ar, acompanho a carreira dos atores com uma proximidade saudável. Imaginemos que, daqui a pouco, mais gente começa a assistir também. Daí eu vejo gente (sobre quem talvez eu não tenha uma opinião muito elevada) postando fotos photoshopadas toscamente com letras de músicas ou quotes da série no facebook. Daí alguém faz um vídeo caseiro bizarro imitando a Lea Michele num dos musicais e vira hit no youtube. Daí uma produtora desconhecida sota uma nota dizendo que vai fazer a versão brasileira de Glee. Daí os fã-clubes promovem um twittaço pra mostrar o quanto eles acharam a nova música original incrível, tipo a nova Rolling in the Deep em termos de qualidade. Enfim, pouco a pouco, a superdivulgação, o fanatismo e outros elementos podem ir tornando a coisa cada vez mais babaquinha…eu sei que é um julgamento pesado, mas pode acontecer. São as consequências de ser parte da cultura pop.

Ao mesmo tempo, algo pode se tornar coxinha sem influência externa alguma. O caso do Dinho Ouro Preto é um exemplo. Eu nunca vi nenhum amigo postando uma homenagem brega a ele no orkut, nunca vi twittaço, video tosco na internet, fã cantando junto no programa do Faustão com lágrimas nos olhos (oi, fãs do Roupa Nova), nada disso. É o caso de a pessoa fazer sua própria (má) fama, independentemente. Também pode acontecer.

Mas o que eu acho mesmo é que, se não dá pra explicar direito, se não tem nenhuma blogueira idiota com uma tese ridícula sobre o assunto, então o melhor é não se importar mesmo e assumir o coxinismo dentro de cada um de nós. A verdade é que ser fã sempre foi, é e sempre será algo muito coxinha, e disso não dá pra escapar. Eu vou continuar curtindo Legião Urbana, achando a nata da música brasileira dos anos 80 e meio que de todos os tempos e vou continuar com vontade de assistir Rock Brasília de qualquer jeito. É preciso ama-aar as pessoas como se não houvesse coxinhas amanhã… ;)

3 comentários:

  1. Fernanda, achei super pertinente a sua colocação e concordo com cada ponto.

    Sobre o Dinho, ele entrou no meu conceito coxinha quando começou a defender o NxZero e acabar com o Restart, como se uma banda fosse MUITO melhor que a outra.

    Não gosto de nenhuma das duas, mas acredito que quem luta e vai atrás dos objetivos merece ser reconhecido. Ou seja, não entendi ainda o porquê desse nariz torcido dele para o Restart.

    Beijos!

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  2. Tmb não entendi pq em 2005 eu via pessoas com camisa do Legião serem vendidas e hj quem usa é idiota... Eu deixei o Legião de lado por um bom tempo, mas foi só assistir O Homem do futuro para voltar tudo e ficar cantando "tempo perdido" por uma semana (inteira!)... Acho que é por modinha mesmo... daqui a pouco eles voltam a ser o top do top

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  3. Não existe nada mais "coxinha" que a juventude de hoje

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