terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Tendência: a anti-heroína

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Sabe aquela roupa antiga, que um dia você comprou achando linda, e usou, usou, usou até o tecido ficar esgarçado, até esgotar todas as combinações possíveis, até seus amigos te zoarem por só sair com aquela maldita peça? Então. Na cultura pop tem essas coisas também. A mocinha da comédia-romântica, por exemplo. Sabe aquela que era super boazinha, e fofa, e pura, e apaixonada por um cara incrível, e com uma peste de uma vilã pra atazanar a vida? Então. Esse tipo de personagem é exatamente igual a roupa antiga. Uma coisa que aparentemente hoje ninguém mais quer usar. (Ninguém menos algumas novelas, mas o resultado negativo é tiro e queda - ou vai dizer que você também não odiava a Marina, personagem da Paola Oliveira em Insensato Coração?)

Já que a heroína de comédia-romântica é uma coisa so last season, significa que hoje temos uma outra tendência para ocupar o seu lugar. E essa tendência, não poderia ser outra senão a anti-heroína. A anti-heroína não é o oposto da mocinha. Ela continua sendo a protagonista da trama, e, em geral, a gente continua torcendo pra ela ter um final feliz. A diferença é que, ao contrário da heroína/mocinha, super exemplo de boa conduta, a anti-heroína põe pra fora tudo que uma mulher pode verdadeiramente sentir/ser/fazer, sem pudores, longe da perfeição. E nem sempre (na verdade, raramente) toda essa sinceridade é sinônimo de belas palavras e ações bonitas.

Eu acho que, quando a gente observa personagens e/ou tramas parecidas em filmes, séries, livros, novelas ou letras de música de uma mesma época, isso diz muito sobre a sociedade desse momento. Não sei traduzir muito o que essa "tendência" da anti-heroína diz sobre o período atual, mas se é verdade que os escritores, compositores e roteiristas se inspiram em aspectos humanos da vida real pra criar seus personagens, então essas aqui de baixo tem muito a dizer sobre nós, que aparentemente não só não temos vergonha como temos orgulho de não sermos a mocinha perfeita. Conheça um pouco mais das anti-heroínas:

Annie, de Bridesmaids



Um dos filmes mais elogiados e consagrados do ano passado, indicado até ao Oscar, é muito possível considerar todas as personagens de Bridesmaids anti-heroínas. Todas. Mas vamos focar na protagonista, né. Annie descreve perfeitamente a categoria da anti-heroína gente como a gente. Ela faz sim um monte de coisa 'não apropriada' - assiste aulas de ginástica escondida por não querer pagar, fica bebassa, perde o controle e destrói a decoração da festa de noivado da melhor amiga, entre outras genialidades - mas o que dá pra sentir é que a personagem é uma pessoa tangível. Essa pessoa que sorri com o dente sujo,  fracassa na profissão, mas no fim sempre acha um (ou vários) motivos pra se divertir e dar risada poderia ser uma amiga sua, uma conhecida ou você mesma. Porque vida totalmente de arco-íris e açúcar, só para as mocinhas perfeitas, também conhecidas como 0,0000000001% da população.

Ally, de Qual É o Seu Número?


Então, você sabe como a vida tá fácil, e homem perfeito tá caindo do céu pra a gente namorar, noivar, ter o casamento de princesa dos nossos sonhos e ser feliz pra sempre, né? Se você sabe, que bom, você realmente deve poder usar a expressão "daora a vida" sem ironia alguma. Se você não sabe e acha que lidar com uma vida amorosa em que as coisas não saem bem do jeito que a gente imaginou quando era criança pode ser bem complicado, parabéns, você vive no mesmo mundo cão que eu, as meninas de Sex and the City e a protagonista de Qual É o Seu Número?. Na busca desesperada de sua alma gêmea, ela se ferra inúmeras vezes, só pra dar pra quem assiste o exemplo do que não fazer. Super didático, só que não exatamente, haha.

Elizabeth, de Professora Sem Classe


Ok, a partir de agora entramos na categoria da anti-heroína a little too much (leia-se louca). As atitudes e opiniões dela são a cara do politicamente incorreto, mas ela não tá nem aí. Não mede esforços pra conquistar o que quer, e desce no nível que for preciso. E às vezes, ou melhor, quase sempre suas vontades e fins não são as mais nobres para justificar os meios totalmente insanos que elas usam pra chegar até lá. Por exemplo, a professora Elizabeth só queria ter dinheiro pra pagar seu implante de silicone, coitada. As ideias que ela tem pra isso, o modo como ela lida com a vida, as coisas que ela faz e fala obviamente são absurdas. Mas a essência é simples e até justa.

Mavis, de Jovens Adultos


O filme ainda não estreou, mas eu tinha tanta vontade de ver que dei meu jeitinho. E olha, achei simplesmente brilhante, um dos melhores filmes dos últimos tempos, e tudo isso por causa de uma das personagens mais bem construídas, mais verdadeiras, mas incorretas e mais humanas que eu já vi na vida. Mavis não tem justificativa: tudo que ela faz é errado, pelas razões erradas. Mas ela é assustadoramente tudo aquilo que a gente tem medo de um dia se tornar - e às vezes, algo que a gente já é, mas não mostra em público, sabe? A anti-heroína pode ser aquela que tem uma linha de pensamento muito equivocada, mas no fundo é só a pessoa que gosta de tomar refrigerante no gargalo, que procrastina trabalho fuçando a vida dos outros online e que canta a música preferida mil vezes no repeat.

Gena, Regan e Katie, de Bachelorette


Outro filme que ainda não estreou, nem trailer tem, mas já é um dos mais comentados pela imprensa gringa atualmente (foi muito elogiado no festival de Sundance). A história é a seguinte: três amigas dos tempos de escola são convidadas para serem madrinhas de casamento da menina que elas costumavam ridicularizar na escola. O caso é que as três bonitas ficam putas porque a noiva, gorda, é a única do grupo que conseguiu desencalhar. Então, consumidas por um instinto invejoso e frustrado, elas decidem zoar o casório e todos os seus pormenores.

Duas coisas são curiosas e extremamente interessantes: o fato de o filme mostrar o outro lado da coisa (a história da pessoa que sofria bullying e hoje está rindo por último todo mundo já conhece, mas a história das pessoas que estavam no auge e hoje estão na merda pode ser mais complexa do que parece) e o fato de, mesmo de forma exagerada, o cinema conseguir colocar pra fora aquele sentimento feio que a gente nunca admite ter. Tipo ficar com ciúmes ao ver aquela menina mais bonita e mais extrovertida que você tendo coragem de dar em cima do cara que você é a fim. Ou ficar com raiva por aquela pessoa sem conteúdo conseguir o emprego que você daria tudo pra ter. Pode acontecer. E você sabe que acontece.

Julianne, de O Casamento do Meu Melhor Amigo


Deixei ela por último porque eu considero a Julianne a pioneira das anti-heroínas. Ela é a síntese de tudo o que esse tipo de personagem representa. Ela aparenta ser forte, mas é frágil - crítica de gastronomia super respeitada e temida, seu mundo cai quando ela descobre que o ex vai casar. Ela não desiste de seu objetivo por nada, faz de tudo pra conseguir, e sabe que está fazendo a coisa errada, se sente culpada, mas não consegue controlar seus sentimentos. Julianne é engraçada, é apaixonada, é louca, e o seu final é tão digno que eu tô me segurando muito pra não dar spoiler aqui. Ela é a prova que, mesmo passando o filme todo sendo ofuscada pelo brilho de uma mocinha perfeita (a noiva do ex-namorado), ainda parece muito mais divertido ser anti-heroína.

As atrizes que fazem personagens más sempre dizem que todo mundo tem um pouco de vilã dentro de si. Eu acho que as atrizes que fazem anti-heroínas já podem começar a dar entrevistas dizendo que todo mundo tem muito de anti-heroína dentro de si, porque olha, na maioria dos casos, não seria nada mais que a verdade ;)

Um comentário:

  1. Adoro anti-heroínas, mas a minha preferida é a Julianne. Ela tem um Q de realidade, que nos faz identificar.

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